“Nos lábios do prudente, se acha sabedoria….
Mas a boca do estúpido é uma ruína iminente.”
Provérbios de Salomão
Nos últimos anos, muito se tem falado e escrito sobre a pressão e o exacerbado nível de estresse a que estão submetidos os profissionais no ambiente interno das organizações.
Essa realidade macabra e geradora de prejuízos anunciados, inclusive da imolação de vidas humanas, foi descrita por um presidente de empresa nos seguintes termos: “Presidente tem a morte anunciada. Sabe que vai morrer, que o preço é alto e a pressão intensa. Em alguns casos, mesmo antes de começar, já sabe quando e como morrerá, resta só definir quanto receberá por isso”. (Revista HSM Management, número 66, Ano 12, volume 6, janeiro e fevereiro de 2008, pág. 27).
As causas geradoras dessa realidade são conhecidas de todos: pressão por resultados a curtíssimo espaço de tempo – “a tirania do trimestre”; intensidade e elevado nível de competição, interna e externa; necessidade premente por redução nos custos de produção e de serviços; medo da perda do emprego e das incertezas que geralmente acompanham os demitidos e seus familiares; ausência de estímulos e de novos desafios aos colaboradores que criam um estado de apatia, complacência e indiferença em relação aos negócios e ao avanço da própria carreira – falta de perspectiva futura e sentimento de um vazio existencial; e o florescimento do “Executivo Safado”, na descrição de Leonard R. Sayles e Cynthia J. Smith em “The Rise of the Rogue Executive – How good companies go bad and how to stop the destruction”.
Todas essas causas são reais, visíveis e inquestionáveis. É sabido que milhares de profissionais as vivenciam diariamente em seus postos de trabalho, até mesmo naquelas empresas consideradas “As melhores empresas para se trabalhar”.
Entretanto, existe outra causa na qual a gravidade e o impacto sobre os profissionais são muito mais odientos e devastadores – a utilização da linguagem de esgoto e de assédio moral. Elas minam a autoconfiança dos indivíduos, destroem o amor próprio das equipes, esgarçam a moral interna das organizações, apodrecem e corrompem os bons costumes internos, azedam as relações humanas, empobrecem os exemplos de dignidade dos superiores e fortalecem o uso da linguagem de prostíbulos de terceira categoria na condução dos negócios e na gestão das pessoas.
Vejamos dois exemplos, ambos colhidos, de empresas de prestígio nacional e internacional:
Primeiro – Executivo reúne subordinados de suas filiais para áudio-conferência. Durante longa exposição, ele se utiliza de um linguajar chulo e desmoralizante, a fim de criticar seus subordinados. A certa altura de sua apresentação, ele brada uma de suas “pérolas” de cabaré: “P… que tem medo de p… grande não fica na avenida”.
Segundo – Leander Kahney em seu livro, “Inside Steve’s Brain” (2008), relata a experiência vivida por um profissional senior de RH da Sun ao participar de processo seletivo na Apple (EUA) – mais de dez semanas de entrevistas com os executivos seniors da Apple antes de se reunir com Steve Jobs, o gênio da computação.
Segundo a própria executiva, Steve Jobs a colocou sob crítica imediatamente: “Ele me disse que meu CV não era adequado à posição. A Sun é um bom lugar, disse ele, mas a Sun não é a Apple. Disse que teria me eliminado de cara como candidata”.
A seguir, perguntou-lhe se tinha alguma pergunta e ela o inquiriu sobre a estratégia da empresa. Job desprezou a pergunta: “Só revelamos nossa estratégia quando necessário”. A executiva, perplexa com sua atitude, indagou: “Por que sua empresa deseja contratar uma profissional de RH”? Ao que Steve Jobs respondeu: “Grande erro. Jamais conheci um de vocês que não fosse um cretino. Jamais conheci uma pessoa de RH que tivesse algo além da mentalidade medíocre”. Então atendeu a uma ligação telefônica e a mulher saiu arrasada.
Meu caro leitor, não importa as circunstâncias, executivos em poder de mando ou que aspiram avançar a postos mais elevados nas corporações, necessitam cuidar com meticulosa atenção sobre o tipo de linguajar de que se valem em seu dia-a-dia de trabalho. Eles precisam se tornar mais cônscios e sensíveis às palavras que dizem.
Afinal, nada justifica o uso da linguagem de esgoto e o assédio moral. Esses contribuem apenas para a proliferação de profissionais “paranóicos” e “mentalmente doentes”, travestidos de executivos bem-sucedidos nas organizações. É mister reeducá-los, curá-los por meio de “executive coaching” ou afastá-los para o bem das empresas a que servem. Reconheço que esse tipo de executivo é o mais difícil de ser afastado das organizações, como apropriadamente observou Jack Welch, ex-Chief Executive Officer da General Electric. Esse tipo de executivo, mesmo que não seja a expressão mais legítima dos valores de uma organização – como integridade, liderança autêntica, comunicação eficaz e irrepreensível, talento social, entre outros – dá “resultados”.
O que não se discute é a que custo humano esses resultados foram obtidos. Em época de escassez de talento humano não seria esse o momento das empresas prestarem mais atenção ao comportamento desses profissionais desajustados, a fim de preservarem seus valores e a saúde da ampla maioria de seus colaboradores?
Sabemos por estudo, pesquisa e experiência que a tarefa mais importante de um executivo é a de não desmoralizar ou desperdiçar o talento humano, qualquer que seja a sua forma, sob o risco de destruir toda uma organização.
Aqui, deveríamos atentar para a sabedoria milenar judáica, expressa em inúmeros de seus aforismos: “Afasta de ti a perversidade dos lábios”; “A boca do néscio é uma ruína iminente”; “O que guarda a boca conserva a sua alma”; “A língua do sábio adorna o conhecimento”; “A língua serena é árvore de vida”; “A língua dos sábios derrama conhecimento”, entre dezenas de outros.
O comportamento de Paul Anderson, Chairman da Spectra Energy, serve de inspiração àqueles que ambicionam carreira profissional de sucesso e que se esmeram em cuidar de cada palavra que pronunciam. Portanto, reflitamos sobre seus aprendizados:
- Eu aprendi ao longo de minha carreira que tinha de cuidar de cada palavra que pronunciava, à medida que avançava a posições mais elevadas na hierarquia corporativa, porque as minhas palavras tinham mais peso do que eu verdadeiramente pensava.
- Eu aprendi ao longo de minhas experiências que tinha de olhar cuidadosamente para o tipo de humor e hipérboles que usava, porque o que muitas vezes considerava ser um comentário profundo podia ser assumido literalmente pelos subordinados. Portanto, evite a todo custo, hipérboles do tipo: “Nós vamos liquidá-los totalmente”, pois alguém poderá fazer conforme você sugere.
- Você precisa pensar, muito antes de falar, para não se arrepender depois. Afinal, não existe tal coisa como “off the record.” Nas palavras de François de Callières, diplomata e secretário de Luís XIV, “Acima de tudo, o bom negociador deve ter suficiente autocontrole para resistir ao desejo de falar antes de haver pensado no que vai dizer”.
Uma palavra pronunciada em ambiente errado, hora errada e para a pessoa errada, poderá custar o curso de sua vida e também de sua carreira profissional. Portanto, faça tudo que estiver ao seu alcance - pela magnificência de seus gestos, pela brandura e generosidade de suas palavras e pelo exemplo modelar de mentor que deixa a todos ao seu redor.
Meu caro leitor, o sucesso profissional conquistado à força ou por meio de intimidação ergue-se sobre base tremendamente frágil. O êxito gerencial, por outro lado, logrado por meios que confiram benefícios recíprocos a ambas as partes, superior e subordinado, deve ser considerado não somente fundamentado com firmeza, mas também a promessa certa de outros aspectos por vir. Portanto, o melhor mesmo é: CUIDADO COM O QUE VOCÊ DIZ!
Abraços fraternais
Por Guilherme Gotardi
Gestor de RH e Contador
Sócio Consultor da DS & G Consultoria Empresarial Ltda